domingo, 26 de fevereiro de 2012

Manhã no espelho

–É estranho ouvir que alguém gosta deles. Sempre achei meus peitos pequenos demais...

Diz ela, nua, se olhando no espelho de frente e de costas, segurando o cabelo num rabo-de-cavalo improvisado.

–São lindos... –Diz a outra. Letícia a olha pelo reflexo, deitada na cama. Tem consciência: tudo, tudo!

Discutia interminavelmente com os pretendentes sobre metades, sobre carências, com as pessoas que ficava para sanar alguma necessidade que uma de suas partes tinha. Na certa, esse negócio de “partes” não existia. Fora um de seus companheiros que havia trazido a idéia para sua cabeça

Não, não era isso, era algo além, que de tão complexo dava medo de si mesma: por via das dúvidas, ficava longe dessa gaveta na cabeça.

–...Agora deixa eu vê-los mais de perto, deixa? Vem pra cá de novo, vem? –Denise acariciava o lugar vazio.

Letícia havia acordado primeiro. “O amor não é inteligível”, alguém tinha lhe dito, criticando sua excessiva razão nas coisas. Acordara e saíra cedo da cama. Foi se olhar de corpo inteiro no espelho, pra ver se não sumia. E na cama de casal, sua cama, a mulher nua embaixo daqueles lençóis.

O exercício de olhar tinha se estendido pela manhã afora. Tinha aproveitado a janela para um pouco de auto-crítica olhando o quarto pelo espelho; afinal, não tinha dado tempo de esconder coisa nenhuma: o urso na prateleira, os poemas piegas dedicados a ela na parede, o pijama de dálmatas no chão... E, mesmo assim, tudo parecia menor. Era como quando bêbada, ou chapada, que ficava brincando com os focos da visão, ora longe, ora perto. Ela estava perto agora, nova, cada detalhezinho se juntando ao todo, como se desabrochasse ontem.

E a menina, Denise, ressonando, tadinha.

A responsável por sua reconstrução estava na mesma festa ontem. A idéia não era sair, ainda estava cansada das seis horas de viagem da casa dos pais, mas sua cabeça vinha muito cheia de Rodrigo, muito cheia das idéias, do amor bonitinho do homem que levaria pra vida toda, mais um, só pela metade. Era preciso refrescar as idéias.

O sol logo iluminaria Denise, logo ela haveria de se incomodar com ele e acordar e, entretanto, ela queria continuar fazendo posições, de frente, de lado, tentando se ver de costas e depois voltar a olhar-se fixamente, alternando caretas, como uma atriz se testando. Livre, livre, finalmente! Tinha vontade de cantar e dançar nua! (mas tinha vergonha, vai que a moça acordasse)

A princípio havia se aborrecido, não esperava vê-la na festa. Era cedo ainda pra tentar, mesmo pensar, naquela menina que há tanto falava coisas pra ela, que, mesmo com aquela cara decidida, com sua auto-afirmação no mundo, ficava toda tímida em sua presença. Pessoalmente, tão poucas palavras, por mensagem, centenas, por olhares distantes e significativos, uma dança quase. Era como ser adolescente de novo. Bosta.

Àquela altura, na festa, Denise já estava bêbada. E o que de sóbrio alguém não fala, o ébrio fala por você. Os olhos fixos, os passos firmes na certeza e vacilantes no álcool, num instante a fizeram se aproximar. Não houve fala, Denise a beijou, pra surpresa de Letícia, e naquele beijo ela se sentiu um alguém que não passara uma semana, mas uma vida fora, em uma terra distante. Se trocaram três frases inteiras a festa toda foi muito, entre dança, bebida e... E... E...

E.

Pouco antes de Denise acordar ela olhava exatamente seus peitos. Dois dias antes, Rodrigo também falava que eram lindos. “Como a gente se desconhece, não?”, sorria ao pensar.

Depois de tanto tempo resistindo, tantos colos pela metade, tanto sofrimento por insuficiência, armava de novo a barraca, deixava crescer dentro de si o mundo particular de um sentimento. Tinha fé.E tudo parecia pequeno, distante. Letícia se sentia inteira de novo, via em Denise um mundo a conhecer, e a cama era a última coisa a aparecer no foco. O resto, o cenário lá fora, se borrava.

–Estou indo, meu bem. –E voltou pra cama.

E foram felizes, até ninguém poder precisar onde.




Escrito por Francisco.
(um conto, finalmente, depois de tanto tempo!)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O homem do saco

Um saco de lixo
cindido,
abarrotado.
Os cães cobiçam
carne misturada
aos restos do dia.

Daqui a pouco
vai chover,
pro bueiro vai
entupir enxurrada

Dois dias já,
naquela esquina.

Ninguém faz nada com o saco de lixo.
Que, chegando mais perto se vê:
foi um homem.

Atropelado faz dois dias
já,
perto do meu ponto de ônibus.

E, contudo, de manhã
o pessoal reclama,
que o lixeiro não passa.




Escrito por Francisco.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Eternidade segundo o abraço

E depois que tudo se acabe
que o sol se acabe
que a vida cesse:

Eu te amo agora
e isso me basta!

A eternidade é só palavra
que rebate em minha carne sedenta,
que desfaz ao te supor;
desejo o veneno do teu olhar
que me paralisa, me tranca o tempo.

No seu sexo hei de jorrar a pausa
e dançaremos, renasceremos
E (aí sim) não haverá mais pranto, clamor ou dor
E depois
depois
haverá, não haverá.
Tanto faz.




Escrito por Francisco.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lembre-se:

o sangue que te irriga o cérebro passa pelo coração.



Escrito por Francisco.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O cactus errado

Havia um passarinho
que adorava comer espinho
e cagar, o porquinho,
em seu próprio ninho.

Assim nasceu o cactus
na árvore do vizinho.




Escrito por Francisco.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sem título

De tão cansado
ao acordar
a voz abafada do escuro
disse:
Não precisa mais.

E calmamente tudo pesado
ia.

E ao sonhar
mais suave disse a voz:
“não precisa disso também”
e o mundo se desprendeu
de cada coisa,
até das cores as linhas.

E o laranja restante,
aconchegante
se esvaziava
em consciência.
E cansaço
mais ainda:
era preciso
dormir de dormir.
E num último sobressalto
de sonâmbulo, a voz disse:
vem cá.

E ele se aninhou
no sempre confortável
colo da Terra.




Escrito por Francisco.

Opa, mais um recado rápido!

Pablo, se você estiver me lendo, fale comigo. Não sei em qual parte do país você está, mas quero que saibas que te estimo, caro amigo, e que sinto sua falta.





Sinceramente, Danilo.

Recados

pequena "tranqüila":

Você já é
um vulcão.
Mesmo dizendo
que não.




****

Esse:
fio
da teia
do tu
que serei
amanhã.



****

E o fogo há de nascer amanhã
e amansar logo após.
Num ciclo infinito de nós.





Escrito por Francisco.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Esquecimento/autodefinição/fortona

acabei de perder uma ótima coisa que eu não disse e que nunca será dita. Não por ninguém a pensar: mas por necessitar de minha força vacilante, de minha história incompleta, de minha luz na medida certa. Esqueci. Merda.


***

eu:
aquele que sempre diz
a hora certa
num momento errado.


***


"--Choro fácil.

--Nem parece. Te imaginei maior fortona...

--Sou fraca pras coisas bonitas da vida"





Escrito por Francisco.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O que fazer...

...quando perdemos o ônibus para o trabalho?

Simples: Amigos!






Danilo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

um dia

Sonha
E não pisa na terra
para que lhe seja leve
quando nela se enterre,
um dia.


(inspirado em "Estudos para uma bailadora andaluza", de João Cabral de Melo Neto)




Escrito por Francisco.
(quase não postei. Há milhões de textos aqui que contém a palavra "um dia" O.O)

Jéssica

De quantas coisas
feitas e não feitas
de quantos desfeitos
somos feitos?





Danilo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A menina (música)

Eu não sei...
O que fazer
de mim.
Não sei mais... Como viver.

Sofro em vão
o que ficou
de mim
Choro em vão
o que eu não sei.

Tento... Me encontrar
sonhando seu sonho
sentindo seu beijo
gozando no amor...

Mas me falta
faz-
-me
falta
algo que deixei.

Nesse caminho
de crescer.

Entre a boneca
e meu corpo
faltou você.
Eu me perdi, mãe
eu me perdi.
Sou criança,
mãe.

Procurando...
Não ser.




Danilo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bom dia

O sol nasce,
a luz penetra a janela
E eu aqui,
a sentir a atmosfera

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Biométrico

Fiz um corte no dedo
com que masturbo
meu relógio de ponto.

E agora? Ele não me
reconhece mais.
Aceita meu suor
mas mão suporta
ver meu sangue.




Escrito por Francisco.