–É estranho ouvir que alguém gosta deles. Sempre achei meus peitos pequenos demais...
Diz ela, nua, se olhando no espelho de frente e de costas, segurando o cabelo num rabo-de-cavalo improvisado.
–São lindos... –Diz a outra. Letícia a olha pelo reflexo, deitada na cama. Tem consciência: tudo, tudo!
Discutia interminavelmente com os pretendentes sobre metades, sobre carências, com as pessoas que ficava para sanar alguma necessidade que uma de suas partes tinha. Na certa, esse negócio de “partes” não existia. Fora um de seus companheiros que havia trazido a idéia para sua cabeça
Não, não era isso, era algo além, que de tão complexo dava medo de si mesma: por via das dúvidas, ficava longe dessa gaveta na cabeça.
–...Agora deixa eu vê-los mais de perto, deixa? Vem pra cá de novo, vem? –Denise acariciava o lugar vazio.
Letícia havia acordado primeiro. “O amor não é inteligível”, alguém tinha lhe dito, criticando sua excessiva razão nas coisas. Acordara e saíra cedo da cama. Foi se olhar de corpo inteiro no espelho, pra ver se não sumia. E na cama de casal, sua cama, a mulher nua embaixo daqueles lençóis.
O exercício de olhar tinha se estendido pela manhã afora. Tinha aproveitado a janela para um pouco de auto-crítica olhando o quarto pelo espelho; afinal, não tinha dado tempo de esconder coisa nenhuma: o urso na prateleira, os poemas piegas dedicados a ela na parede, o pijama de dálmatas no chão... E, mesmo assim, tudo parecia menor. Era como quando bêbada, ou chapada, que ficava brincando com os focos da visão, ora longe, ora perto. Ela estava perto agora, nova, cada detalhezinho se juntando ao todo, como se desabrochasse ontem.
E a menina, Denise, ressonando, tadinha.
A responsável por sua reconstrução estava na mesma festa ontem. A idéia não era sair, ainda estava cansada das seis horas de viagem da casa dos pais, mas sua cabeça vinha muito cheia de Rodrigo, muito cheia das idéias, do amor bonitinho do homem que levaria pra vida toda, mais um, só pela metade. Era preciso refrescar as idéias.
O sol logo iluminaria Denise, logo ela haveria de se incomodar com ele e acordar e, entretanto, ela queria continuar fazendo posições, de frente, de lado, tentando se ver de costas e depois voltar a olhar-se fixamente, alternando caretas, como uma atriz se testando. Livre, livre, finalmente! Tinha vontade de cantar e dançar nua! (mas tinha vergonha, vai que a moça acordasse)
A princípio havia se aborrecido, não esperava vê-la na festa. Era cedo ainda pra tentar, mesmo pensar, naquela menina que há tanto falava coisas pra ela, que, mesmo com aquela cara decidida, com sua auto-afirmação no mundo, ficava toda tímida em sua presença. Pessoalmente, tão poucas palavras, por mensagem, centenas, por olhares distantes e significativos, uma dança quase. Era como ser adolescente de novo. Bosta.
Àquela altura, na festa, Denise já estava bêbada. E o que de sóbrio alguém não fala, o ébrio fala por você. Os olhos fixos, os passos firmes na certeza e vacilantes no álcool, num instante a fizeram se aproximar. Não houve fala, Denise a beijou, pra surpresa de Letícia, e naquele beijo ela se sentiu um alguém que não passara uma semana, mas uma vida fora, em uma terra distante. Se trocaram três frases inteiras a festa toda foi muito, entre dança, bebida e... E... E...
E.
Pouco antes de Denise acordar ela olhava exatamente seus peitos. Dois dias antes, Rodrigo também falava que eram lindos. “Como a gente se desconhece, não?”, sorria ao pensar.
Depois de tanto tempo resistindo, tantos colos pela metade, tanto sofrimento por insuficiência, armava de novo a barraca, deixava crescer dentro de si o mundo particular de um sentimento. Tinha fé.E tudo parecia pequeno, distante. Letícia se sentia inteira de novo, via em Denise um mundo a conhecer, e a cama era a última coisa a aparecer no foco. O resto, o cenário lá fora, se borrava.
–Estou indo, meu bem. –E voltou pra cama.
E foram felizes, até ninguém poder precisar onde.
Escrito por Francisco.
(um conto, finalmente, depois de tanto tempo!)




